DOIS ESPÍRITOS: gênero e sexualidade em algumas sociedades indígenas americanas

Antes da colonização europeia, sociedades indígenas norte-americanas como os Navajo, os Cheyenne, os Cherokee, os Lakota, os Ojibwa e os Zuni utilizavam expressões que podemos traduzir como “gente de dois espíritos” para nomear pessoas que apresentavam características tanto “masculinas” quanto “femininas”.

Segundo o principal jornal indígena dos Estados Unidos, essas pessoas não sofriam discriminação em suas sociedades. Pelo contrário, as famílias que possuíam um membro assim eram consideradas de muita sorte. Acreditava-se que uma pessoa que vinha ao mundo “com os olhos de ambos os espíritos — o feminino e o masculino” era uma dádiva.

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Osh-Tisch, guerreira da sociedade Lakota. Ela nasceu varão e se casou com uma mulher, porém se vestia com roupas femininas e vivia o seu quotidiano como uma mulher. Em 1876, Osh-Tisch ganhou grande reputação e registrou seu nome na história ao resgatar e salvar a vida de um homem de sua tribo durante a Batalha de Rosebud Creek.

Diferentes comunidades usavam diferentes nomes para designar esses gêneros. Os Navajo, por exemplo, se referem aos “dois espíritos” como nádleehí (que significa “aquele que se transformou”); já entre os Lakota existem os winkté (nome dado a “homens que se comportam como mulheres”, e vice-versa); os Ojibwa usam o termo niizh manidoowag (que literalmente significa “dois espíritos”), enquanto que os Cheyenne usavam a expressão hemaneh (“metade homem, metade mulher). E isso para nomear apenas algumas poucas culturas.

Mas todos esses nomes têm significados parecidos que podemos traduzir como: “mulher de dois espíritos”, “homem de dois espíritos” e “pessoa com espírito trocado”. “Homem e mulher de dois espíritos” possuem, num mesmo corpo, um espírito de homem e outro de mulher e se assemelham, em certa medida, ao que chamamos de “homossexuais” em nossa sociedade; já a “pessoa de espírito trocado” pode ter o espírito de homem num corpo feminino, ou o espírito de uma mulher num masculino e seriam equivalentes ao que chamamos de “transexuais” em nossa cultura.

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We’Wha (1849-1896), líder da sociedade Zuni. Seus dotes intelectuais e diplomáticos, atribuídos ao fato de ele ser um varão com espírito feminino e masculino, fizeram com que seu povo o escolhesse embaixador indígena dos Zuni em Washington, capital dos Estados Unidos.

A chegada dos europeus e, com ela, a influência da religião cristã gerou uma intensa perseguição a esse aspecto cultural dos povos indígenas norte-americanos. Sob dominação dos europeus, muitos indígenas de dois espíritos foram forçados a mudarem seu jeito de ser e se esconderem da sociedade para não serem perseguidos. Um claro exemplo dessa perseguição é a declaração do escritor e estudioso das culturas indígenas, George Catlin, que afirmou que “essa tradição deve ser erradicada antes de chegar aos livros de história”.

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Casal de homens de dois espíritos Navajo

A aceitação cultural de pessoas que chamamos em nossa sociedade de “homossexuais” e “transexuais” também foi registrada no México. Há evidências de que monges católicos espanhóis destruíram muitos códices astecas com o objetivo de erradicar os relatos e as crenças tradicionais, entre elas a dos “dois espíritos”. Através de toda uma série de esforços e violências, os europeus cristão forçaram os indígenas norte-americanos a atuar de acordo com os papeis de gênero designados por eles.

Esse importante aspecto de sociedades indígenas norte-americanas nos leva a questionar se a diversidade de expressões de gênero e orientações sexuais que observamos em nossa sociedade são realmente “anti-naturais”, como afirma parcela da sociedade que discrimina pessoas que não se encaixam nos padrões de “masculino” e “feminino” estabelecidos em nossa cultura.

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Apesar da perseguição histórica, vários povos indígenas ainda mantêm em sua cultura o respeito às pessoas nascidas com dois espíritos. Em alguns estados, há até mesmo um concurso de beleza entre essas pessoas.
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Landa Lakes, mulher de dois espíritos de origem Chikasaw.

Adaptado por Nilton Aguilar do texto de Luis Pellegrini.

 

 

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